Capa do relato: o dia em que a memória não deu conta, sobre fundo verde-claro da Luma

Quem cuida 4 min de leitura

O dia em que a memória não deu conta

Por Rogério Werneck · Publicado em

Neste artigo

Foi numa terça-feira comum. A consulta tinha sido na sexta, o médico ajustou uma dose e trocou um horário. Eu anotei em algum lugar. Na terça, ao telefone, minha mãe perguntou: “o remédio novo era antes ou depois do almoço?”

Eu não sabia.

O que veio junto com o “não sei” foi desproporcional ao tamanho da pergunta. Não era uma informação perdida. Era a sensação de que o sistema inteiro (eu, minha memória e um caderno) tinha um limite, e a gente tinha acabado de encontrá-lo.

O caderno, o grupo da família e os papeizinhos

Nosso “sistema” era igual ao de muita família: um caderno que ficava na casa dela, um grupo no aplicativo de mensagens com três anos de histórico e a receita mais recente presa por um ímã na geladeira.

Cada pedaço da informação morava em um lugar. Nenhum lugar tinha a informação inteira.

Um arranjo assim funciona por muito tempo, e é por isso que quase ninguém percebe o problema antes da hora. Enquanto a rotina fica estável, a memória cobre as lacunas: você lembra do horário porque ele sempre foi aquele. A rachadura só aparece quando alguma coisa muda. Uma dose ajustada, um remédio novo, um horário trocado. Foi exatamente aí que ele quebrou.

Cartão com a frase: não era falta de cuidado, era excesso de coisas para lembrar
A frase que ficou no caderno daquela semana.

Quando percebi isso, parei de me cobrar por esquecer. Não era falta de cuidado: era excesso de coisas para lembrar, espalhadas demais.

A parte que ninguém combina

O incômodo maior não foi o esquecimento em si. Foi enxergar quanta coisa eu estava carregando sem ter percebido que carregava.

Em toda família alguém acaba ficando com o cargo de lembrar. Ninguém nomeia essa pessoa e ninguém combina isso numa conversa; o cargo vai se acumulando sozinho, aos poucos. Os horários. O estoque. Quem prescreveu o quê. O motivo pelo qual um remédio saiu da lista no ano passado. É um trabalho que não aparece em lugar nenhum, e que só fica visível no dia em que falha.

E quando falha, a primeira reação é culpa. Foi a minha, por alguns dias. Levei um tempo para trocar a pergunta “como eu esqueci disso?” por outra, que rendia mais: “por que isso dependia só de mim lembrar?”

O que mudou (e o que ainda não mudou)

Mudamos pouca coisa, de propósito.

Primeiro, um lugar único para a lista de medicamentos, com nome, dose, horário e quem prescreveu. Ela virou depois o passo 2 do guia prático de organização, mas nasceu ali, naquela semana, como uma folha só.

Segundo, a foto da receita guardada junto da lista, e não perdida no meio das outras fotos do celular.

Terceiro, a combinação de que quem vai à consulta atualiza a lista na volta.

Nenhuma dessas mudanças exigiu aplicativo, dinheiro ou uma conversa difícil. E ainda assim, foi a primeira semana em anos em que ninguém precisou perguntar “era antes ou depois do almoço?”.

O que ainda não mudou: a carga de quem coordena continua existindo. Organizar ajuda a carregá-la com mais clareza e reparte um pedaço dela com mais gente. Não a faz desaparecer. É honesto dizer isso, e eu prefiro dizer.

Se você chegou até aqui procurando o método em vez da história, ele está inteiro no guia de como organizar os medicamentos de um idoso: os quatro passos, a divisão de papéis na família e os erros que mais atrapalham.

E se o que pesa aí na sua casa for a divisão entre irmãos, essa parte tem guia próprio: como dividir o cuidado dos pais entre irmãos, com as cinco tarefas do cuidado e o que fazer quando uma pessoa só ficou com todas.

É esse tipo de rotina que estamos construindo na Luma: um lugar só para a informação de saúde da família, para que a memória possa descansar.

Rogério Werneck · Fundador da Luma

Construindo a Luma, uma central de saúde da família. Escreve sobre organização de cuidado, medicamentos e rotina familiar.

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