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O dia em que a memória não deu conta
Por Rogério Werneck · Publicado em
Neste artigo
Foi numa terça-feira comum. A consulta tinha sido na sexta, o médico ajustou uma dose e trocou um horário. Eu anotei em algum lugar. Na terça, ao telefone, minha mãe perguntou: “o remédio novo era antes ou depois do almoço?”
Eu não sabia.
O que veio junto com o “não sei” foi desproporcional ao tamanho da pergunta. Não era uma informação perdida. Era a sensação de que o sistema inteiro (eu, minha memória e um caderno) tinha um limite, e a gente tinha acabado de encontrá-lo.
O caderno, o grupo da família e os papeizinhos
Nosso “sistema” era igual ao de muita família: um caderno que ficava na casa dela, um grupo no aplicativo de mensagens com três anos de histórico e a receita mais recente presa por um ímã na geladeira.
Cada pedaço da informação morava em um lugar. Nenhum lugar tinha a informação inteira.
Um arranjo assim funciona por muito tempo, e é por isso que quase ninguém percebe o problema antes da hora. Enquanto a rotina fica estável, a memória cobre as lacunas: você lembra do horário porque ele sempre foi aquele. A rachadura só aparece quando alguma coisa muda. Uma dose ajustada, um remédio novo, um horário trocado. Foi exatamente aí que ele quebrou.
Quando percebi isso, parei de me cobrar por esquecer. Não era falta de cuidado: era excesso de coisas para lembrar, espalhadas demais.
A parte que ninguém combina
O incômodo maior não foi o esquecimento em si. Foi enxergar quanta coisa eu estava carregando sem ter percebido que carregava.
Em toda família alguém acaba ficando com o cargo de lembrar. Ninguém nomeia essa pessoa e ninguém combina isso numa conversa; o cargo vai se acumulando sozinho, aos poucos. Os horários. O estoque. Quem prescreveu o quê. O motivo pelo qual um remédio saiu da lista no ano passado. É um trabalho que não aparece em lugar nenhum, e que só fica visível no dia em que falha.
E quando falha, a primeira reação é culpa. Foi a minha, por alguns dias. Levei um tempo para trocar a pergunta “como eu esqueci disso?” por outra, que rendia mais: “por que isso dependia só de mim lembrar?”
O que mudou (e o que ainda não mudou)
Mudamos pouca coisa, de propósito.
Primeiro, um lugar único para a lista de medicamentos, com nome, dose, horário e quem prescreveu. Ela virou depois o passo 2 do guia prático de organização, mas nasceu ali, naquela semana, como uma folha só.
Segundo, a foto da receita guardada junto da lista, e não perdida no meio das outras fotos do celular.
Terceiro, a combinação de que quem vai à consulta atualiza a lista na volta.
Nenhuma dessas mudanças exigiu aplicativo, dinheiro ou uma conversa difícil. E ainda assim, foi a primeira semana em anos em que ninguém precisou perguntar “era antes ou depois do almoço?”.
O que ainda não mudou: a carga de quem coordena continua existindo. Organizar ajuda a carregá-la com mais clareza e reparte um pedaço dela com mais gente. Não a faz desaparecer. É honesto dizer isso, e eu prefiro dizer.
Se você chegou até aqui procurando o método em vez da história, ele está inteiro no guia de como organizar os medicamentos de um idoso: os quatro passos, a divisão de papéis na família e os erros que mais atrapalham.
E se o que pesa aí na sua casa for a divisão entre irmãos, essa parte tem guia próprio: como dividir o cuidado dos pais entre irmãos, com as cinco tarefas do cuidado e o que fazer quando uma pessoa só ficou com todas.
É esse tipo de rotina que estamos construindo na Luma: um lugar só para a informação de saúde da família, para que a memória possa descansar.
Rogério Werneck · Fundador da Luma
Construindo a Luma, uma central de saúde da família. Escreve sobre organização de cuidado, medicamentos e rotina familiar.
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